Meu deserto imaginário

Something's gotta change


We take a chance from time to time
And put our necks out on the line
And you have broken every promise that we made
And I have loved you anyway

Took a fine time to leave me hangin' out to dry
Understand now I'm greivin'
So don't you waste my time
Cause you have taken
All the wind out from my sails
And I have loved you just the same

We finally find this
Then you're gone
Been chasin' rainbows all along
And you have cursed me
When there's no one left to blame
And I have loved you just the same

And you have broken every single fucking rule
And I have loved you like a fool

"My whole life's turned around
For this thing you keep chasing
You were right all along
It's me who's got to change"

Das grandes descobertas



Revendo escritos cotidianos de 2010, 2011 e 2012, percebo o quanto a vida me endureceu. O quanto que fui deixando pedaços de mim pra entrar nas regras, nas obrigações e adentrar mundo afora sempre com um olhar desconfiado e sem esperanças, esse que a vida "lá fora" te impõe. É difícil não se deixar levar, não se deixar perder, perder inclusive sua poesia própria, sua conexão com o interior e se tornar 'mecânico'. Eu sempre acho que penso demais, mas acho que a direção estava errada. Para esse mundo capitalista e destrutivo é muito melhor que as pessoas se fechem, que não interajam, que não compartilhem, que fiquem anacrônicos na sua vida paralisada cotidianamente só seguindo o fluxo. Eu não quero mais isso. Para as pessoas que também se sentem assim, ou ainda não perceberam isso, só peço que lutem. Resistam a opressão das experiências ruins, do trabalho robótico, da acadêmia maçante, dos dias passando sem entender que somos parte de algo, que precisamos ficar juntos, que precisamos construir juntos, que precisamos nos abraçar, que precisamos olhar.

Primeiramente para dentro de nós.

Das amarras que nos prendem


Sua mente é um pássaro.
Aí de repente ele tá lá preso dentro de um emaranhado de arame-farpado. E você quer tira-lo de lá, pois você sente a dor dele... mas ir pode te machucar muito também. Aí você fica nessa luta até decidir por ele e ir resgata-lo. Você se arrebenta todinho mas depois, bem lá no final, ele estará livre novamente.





*Eu geralmente penso demais, o tempo todo, sobre tudo. Muitas vezes, angustiada, tento "desligar" minha mente. De diversas maneiras, fujo avidamente dos meus pensamentos pois não quero enfrenta-los. Mas tem uma hora que esse abandono se torna algo tão grande e já tem tanta dor acumulada que eu preciso parar.

Pretérito passado



Eles se olhavam de maneira triste naquele fim de domingo. Domingos eram sempre tediosos, principalmente 'quando não se acredita em Deus'. Chegara o momento. Eles entraram no ponto onde não há mais caminho. Dali para frente apenas o deserto. Não haviam mais sorrisos, nem novidades, nem nada novo. A ausência das palavras e a falta de desejo. O silêncio falava muito mais nas entrelinhas. Os beijos eram secos, o sexo era mecânico, o toque não despertava mais nada. O peso, a culpa, a dor. Perdidos, tentavam se agarrar a qualquer sobra de sentimento, aquele passado em que dormiam seus sonhos. Admitir o fim era difícil. Quem poderia crer que tudo havia se transformado em pó? Ela o culpava. Ele a culpava. Como numa gangorra, empurravam um para o outro o peso daquele fim.

reminiscências...


Tudo nesse quarto me lembra você.
Do seu cheiro naquele travesseiro, as fotos presas na parede, Bansky, a guitarra intimista de The Meters ao pássaro de papel. Até onde não está você se concentra presente, na janela, nas noites furtivas e embriagadas, nas lembranças saudosas, na minha rua, nas outras ruas, nos bares, nos sorrisos das pessoas, no corpo de outros homens, na poesia do dia-a-dia, na falta dela, na voz rouca de choro, nas unhas vermelhas ruídas, nas viagens alucinantes, nas verdades não-ditas, naquilo que se quebrou, em todos os lugares...

Intenso


. adoro quando me olhas com esse olhar fotográfico . e sabes todos os meus gestos . como se adivinhasses todas as minhas vontades . adoro quando você finge que não há mais ninguém . e as pessoas passam curiosas a nós olhar . adoro quando brincas de ser meu desejo mais secreto . adoro quando me tira do sério . e sempre tem uma desculpa na ponta da língua . adoro quando você surta e começa a filosofar as coisas mais loucas . adoro quando me liga do nada só pra dizer que está com saudades . adoro quando você faz o que ninguém faria . adoro quando você tenta ser normal e não consegue . adoro quando te beijo com gosto de cerveja . adoro quando você me diz não . adoro quando não consigo ter controle . adoro quando você fala suas teorias tão certas . adoro quando ouço tua respiração . adoro nossas conversas horas a fio por telefone . adoro quando você fica com raiva . adoro fazer da nossa vida um video-clip . adoro sentir teu coração todas as noites . adoro quando me chama de um jeito só teu . adoro quando seguras minhas mãos quando a vida tá um caos . adoro sentir teu cheiro . adoro quando faz carinho perto dos olhos . adoro suas estórias . adoro sua vontade louca de ser do mundo . adoro quando minha mão encaixa perfeitamente na sua . adoro seus defeitos que me deixam louca . 


Passarinho


Quem te magoou dessa forma pra você ser assim?

Ela não consegue lembrar sequer se houve mesmo alguém, um motivo... Sempre se sentiu assim presa em sua liberdade.

Fome de gente


Os momentos sempre parecem tão intensos para eles... Ana simplesmente sorri enquanto olha para a porta da saída. Eles não têm o que ela quer. Nunca terão. Não por inteiro, não por completo. 
Já se percebeu apaixonada algumas vezes. Sentia-se bem com aqueles momentos, as mãos dadas, a rotina carinhosa, as perguntas fúteis sobre o clima. Com o tempo ela cansa e lhe invade o cheiro da paixão vencida.

A fome é mais incontrolável do que qualquer altruísmo que Ana tente injetar em si mesma.

Fome de Tudo

Ela nunca se sentia completa.
Uma fome irremediável de novidades, outras bocas, peles, corpos.
Mas não era simplesmente o alimento carnal que lhe apetecia.

As ideias, os movimentos, a forma de escovar os dentes, os discos, as dores, os riscos... Gostava de tocar almas porque elas nunca se entendem. Os corpos sim.

O livro vermelho


Desde pequena ela sequer havia saído dos arredores da casa dos pais. A costureira, essa sim a sua mais longa viagem, ficava a dois quarteirões dali. Desconfiada e discreta. Aconchegara as costas naquele sofá miúdo e de poucas cores.  – Sinta-se em casa, advertiu ele. Ela estremeceu. 

De todas as descobertas daquele novo mundo fixava-se na estante de livros. Inicialmente tinha medo de tocá-la. Parecia um grande lembrete que ali não era seu lar. De todas as ressignificações diárias do seu novo espaço aquela estante lhe repelia a uma desnaturalização. Será que ele lera todos aqueles livros? Cada título em capas distintas lhe inferia o abismo existente. Afinal, não era o seu lar. Quantas vezes voltando da floricultura se perdera tentando achar o caminho da antiga casa?

Passou a observar as capas. Com a desculpa de tirar-lhes o pó, é claro. Até que começou a lê-los insaciavelmente escondido. Era um crime. Ela era uma criminosa absorta naquelas tardes em que sentava a janela e ia devorando um a um, o máximo que conseguia. Nos finais de semana quando ele recebia visitas, ela sorria deliciosamente por dentro e calada observava os senhores discursarem longamente enquanto lhes servia café. Astronomia, história, psicologia, literatura e até filosofia. Ela gostava de ouvir e ficava imaginando seus próprios longos discursos.

Em pouco tempo da sua chegada leu até a última prateleira. Havia sobrado apenas um livro pequeno de capa vermelha, quase esquecido no meio de tantos livros maiores. Agarrou-lhe ao peito em prantos. Não poderia ler este. 

Depois daquela tarde, toda a casa tornou-se claustrofóbica. Angustiada, enterrou o pequeno livro vermelho no meio do jardim entre as tulipas. Todos aqueles mundos que conhecera tão distintos do seu, tão distantes do seu... Aquele pequeno livro representava a última chave, o seu último bilhete de passagem. Jamais dissera a ele a razão de tanta dedicação as tulipas. E mesmo que ele insistisse que deixasse o jardineiro fazer o trabalho dele, ela quase suplicava que lhe deixasse fazer isso, ao menos isso.

Anos se passaram e ela foi mãe, avó. Recebera as visitas do marido inúmeros finais de semana até arriscando algumas vezes tocar poucas melodias no piano. Mesmo quando ele se foi, jamais voltaria a ver seu tesouro escondido no jardim. Enterrou com o pequeno livro vermelho todos os mundos que sonhara em viver e que só realizava na imaginação da sua memória.