segunda-feira, 12 de maio de 2014 0 mil caóticos

Das grandes descobertas



Revendo escritos cotidianos de 2010, 2011 e 2012, percebo o quanto a vida me endureceu. O quanto que fui deixando pedaços de mim pra entrar nas regras, nas obrigações e adentrar mundo afora sempre com um olhar desconfiado e sem esperanças, esse que a vida "lá fora" te impõe. É difícil não se deixar levar, não se deixar perder, perder inclusive sua poesia própria, sua conexão com o interior e se tornar 'mecânico'. Eu sempre acho que penso demais, mas acho que a direção estava errada. Para esse mundo capitalista e destrutivo é muito melhor que as pessoas se fechem, que não interajam, que não compartilhem, que fiquem anacrônicos na sua vida paralisada cotidianamente só seguindo o fluxo. Eu não quero mais isso. Para as pessoas que também se sentem assim, ou ainda não perceberam isso, só peço que lutem. Resistam a opressão das experiências ruins, do trabalho robótico, da acadêmia maçante, dos dias passando sem entender que somos parte de algo, que precisamos ficar juntos, que precisamos construir juntos, que precisamos nos abraçar, que precisamos olhar.

Primeiramente para dentro de nós.
quinta-feira, 1 de maio de 2014 2 mil caóticos

Das amarras que nos prendem


Sua mente é um pássaro.
Aí de repente ele tá lá preso dentro de um emaranhado de arame-farpado. E você quer tira-lo de lá, pois você sente a dor dele... mas ir pode te machucar muito também. Aí você fica nessa luta até decidir por ele e ir resgata-lo. Você se arrebenta todinho mas depois, bem lá no final, ele estará livre novamente.





*Eu geralmente penso demais, o tempo todo, sobre tudo. Muitas vezes, angustiada, tento "desligar" minha mente. De diversas maneiras, fujo avidamente dos meus pensamentos pois não quero enfrenta-los. Mas tem uma hora que esse abandono se torna algo tão grande e já tem tanta dor acumulada que eu preciso parar.
segunda-feira, 24 de março de 2014 1 mil caóticos

Pretérito passado



Eles se olhavam de maneira triste naquele fim de domingo. Domingos eram sempre tediosos, principalmente 'quando não se acredita em Deus'. Chegara o momento. Eles entraram no ponto onde não há mais caminho. Dali para frente apenas o deserto. Não haviam mais sorrisos, nem novidades, nem nada novo. A ausência das palavras e a falta de desejo. O silêncio falava muito mais nas entrelinhas. Os beijos eram secos, o sexo era mecânico, o toque não despertava mais nada. O peso, a culpa, a dor. Perdidos, tentavam se agarrar a qualquer sobra de sentimento, aquele passado em que dormiam seus sonhos. Admitir o fim era difícil. Quem poderia crer que tudo havia se transformado em pó? Ela o culpava. Ele a culpava. Como numa gangorra, empurravam um para o outro o peso daquele fim.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014 0 mil caóticos

reminiscências...


Tudo nesse quarto me lembra você.
Do seu cheiro naquele travesseiro, as fotos presas na parede, Bansky, a guitarra intimista de The Meters ao pássaro de papel. Até onde não está você se concentra presente, na janela, nas noites furtivas e embriagadas, nas lembranças saudosas, na minha rua, nas outras ruas, nos bares, nos sorrisos das pessoas, no corpo de outros homens, na poesia do dia-a-dia, na falta dela, na voz rouca de choro, nas unhas vermelhas ruídas, nas viagens alucinantes, nas verdades não-ditas, naquilo que se quebrou, em todos os lugares...
quarta-feira, 16 de outubro de 2013 0 mil caóticos

Intenso


. adoro quando me olhas com esse olhar fotográfico . e sabes todos os meus gestos . como se adivinhasses todas as minhas vontades . adoro quando você finge que não há mais ninguém . e as pessoas passam curiosas a nós olhar . adoro quando brincas de ser meu desejo mais secreto . adoro quando me tira do sério . e sempre tem uma desculpa na ponta da língua . adoro quando você surta e começa a filosofar as coisas mais loucas . adoro quando me liga do nada só pra dizer que está com saudades . adoro quando você faz o que ninguém faria . adoro quando você tenta ser normal e não consegue . adoro quando te beijo com gosto de cerveja . adoro quando você me diz não . adoro quando não consigo ter controle . adoro quando você fala suas teorias tão certas . adoro quando ouço tua respiração . adoro nossas conversas horas a fio por telefone . adoro quando você fica com raiva . adoro fazer da nossa vida um video-clip . adoro sentir teu coração todas as noites . adoro quando me chama de um jeito só teu . adoro quando seguras minhas mãos quando a vida tá um caos . adoro sentir teu cheiro . adoro quando faz carinho perto dos olhos . adoro suas estórias . adoro sua vontade louca de ser do mundo . adoro quando minha mão encaixa perfeitamente na sua . adoro seus defeitos que me deixam louca . 

domingo, 6 de outubro de 2013 0 mil caóticos

Passarinho


Quem te magoou dessa forma pra você ser assim?

Ela não consegue lembrar sequer se houve mesmo alguém, um motivo... Sempre se sentiu assim presa em sua liberdade.
sábado, 5 de outubro de 2013 0 mil caóticos

Fome de gente


Os momentos sempre parecem tão intensos para eles... Ana simplesmente sorri enquanto olha para a porta da saída. Eles não têm o que ela quer. Nunca terão. Não por inteiro, não por completo. 
Já se percebeu apaixonada algumas vezes. Sentia-se bem com aqueles momentos, as mãos dadas, a rotina carinhosa, as perguntas fúteis sobre o clima. Com o tempo ela cansa e lhe invade o cheiro da paixão vencida.

A fome é mais incontrolável do que qualquer altruísmo que Ana tente injetar em si mesma.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013 0 mil caóticos

Fome de Tudo

Ela nunca se sentia completa.
Uma fome irremediável de novidades, outras bocas, peles, corpos.
Mas não era simplesmente o alimento carnal que lhe apetecia.

As ideias, os movimentos, a forma de escovar os dentes, os discos, as dores, os riscos... Gostava de tocar almas porque elas nunca se entendem. Os corpos sim.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013 0 mil caóticos

O livro vermelho


Desde pequena ela sequer havia saído dos arredores da casa dos pais. A costureira, essa sim a sua mais longa viagem, ficava a dois quarteirões dali. Desconfiada e discreta. Aconchegara as costas naquele sofá miúdo e de poucas cores.  – Sinta-se em casa, advertiu ele. Ela estremeceu. 

De todas as descobertas daquele novo mundo fixava-se na estante de livros. Inicialmente tinha medo de tocá-la. Parecia um grande lembrete que ali não era seu lar. De todas as ressignificações diárias do seu novo espaço aquela estante lhe repelia a uma desnaturalização. Será que ele lera todos aqueles livros? Cada título em capas distintas lhe inferia o abismo existente. Afinal, não era o seu lar. Quantas vezes voltando da floricultura se perdera tentando achar o caminho da antiga casa?

Passou a observar as capas. Com a desculpa de tirar-lhes o pó, é claro. Até que começou a lê-los insaciavelmente escondido. Era um crime. Ela era uma criminosa absorta naquelas tardes em que sentava a janela e ia devorando um a um, o máximo que conseguia. Nos finais de semana quando ele recebia visitas, ela sorria deliciosamente por dentro e calada observava os senhores discursarem longamente enquanto lhes servia café. Astronomia, história, psicologia, literatura e até filosofia. Ela gostava de ouvir e ficava imaginando seus próprios longos discursos.

Em pouco tempo da sua chegada leu até a última prateleira. Havia sobrado apenas um livro pequeno de capa vermelha, quase esquecido no meio de tantos livros maiores. Agarrou-lhe ao peito em prantos. Não poderia ler este. 

Depois daquela tarde, toda a casa tornou-se claustrofóbica. Angustiada, enterrou o pequeno livro vermelho no meio do jardim entre as tulipas. Todos aqueles mundos que conhecera tão distintos do seu, tão distantes do seu... Aquele pequeno livro representava a última chave, o seu último bilhete de passagem. Jamais dissera a ele a razão de tanta dedicação as tulipas. E mesmo que ele insistisse que deixasse o jardineiro fazer o trabalho dele, ela quase suplicava que lhe deixasse fazer isso, ao menos isso.

Anos se passaram e ela foi mãe, avó. Recebera as visitas do marido inúmeros finais de semana até arriscando algumas vezes tocar poucas melodias no piano. Mesmo quando ele se foi, jamais voltaria a ver seu tesouro escondido no jardim. Enterrou com o pequeno livro vermelho todos os mundos que sonhara em viver e que só realizava na imaginação da sua memória.

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Memórias Póstumas do Brasil



Respiramos hipocrisia
Nesse mundo tão “perfeito”
Chega até ser heresia
Não aceitar o que já está feito.

Temos que aguentar calados
FIQUEM MUDAS TODAS AS VOZES!
E os olhos bem vendados
Com cortinas de fumaça
Mas não tente! Não reaja!
O capitalismo é selvagem.

Vamos ser eternos atores
Nesse nosso GLOBRASIL
Um país de malfeitores
Com “perigos infantis”
Para poder se manter
Com uma educação distante
Temos novas profissões:
Corruptos ou traficantes.

Mas que país maravilhoso!
Não é 10 é 100!!!
Sem emprego
Sem estudo
Sem carinho
Sem ninguém.



(19/08/04)
sexta-feira, 17 de maio de 2013 0 mil caóticos

Dela.



Amo, e iria até o inimaginável...

Cada vez que o seu sorriso é forçado a se esconder, vejo que seria capaz de achar este motivo perdido em qualquer parte do mundo só para rasgá-lo em mil partes e transformá-lo em pesadelo acabado. Colocando ela para ninar novamente, cantando aquilo que ela tanto gosta.
Eu a amo e não suporto que fique assim, não cabe em mim a ideia de vê-la com um molhado/frio no mesmo rosto que outrora exalava paz, beleza, serenidade. Não suporto saber que os mesmos olhos que beijei, agora estão tão distantes, procurando respostas em algum pensamento perdido, ou formado forçosamente para explicar o motivo da dor.
Ela é a mulher que sempre amei, que sempre sonhei em ter aqui, deste lado do peito, da cama e das mãos dadas pelas ruas. Eu exijo que tenham cuidado com ela e com seus sentimentos! Não há o porquê desta falta de respeito para com este coração que mesmo já tendo sido tão apertado, continuou delicado e sincero para quem quisesse chegar. Um coração que só pelo fato de existir já merece carinho e admiração.
Ela é a mulher mais linda que já conheci, carrega dois olhos infinitos, janelas de sua alma fervente, borbulhante de ideias e de sonhos. Uma boca certa e forte por onde saem (além dos mais perfeitos beijos), as palavras cantadas e faladas pelas quais me apaixonei. Ela tem um cabelo que lhe dá força. Mas ele deve estar preso hoje... Deve estar tão preso em sua cabeça, quanto a tristeza e angústia em seu coração musical.
Eu exijo que tudo isso passe logo, que ela novamente possa sorrir, soltar os cabelos longos e olhar para o mundo, comendo e degustando as suas coisas boas. Para isso, ordeno que o mundo melhore o quanto antes, e vou ajudar nisso, junto com ela. Quero pintar as paredes dos seus dias em tons vermelhos, quero ajudar a tirar seus medos, cuidando com ela deste coração que tanto quero ver bem.
Amo tanto! Amo com todas as minhas forças e fraquezas, com todas as doenças e remédios...e mais...lhe daria meu coração, se possível fosse, para que passasse para ele parte destes apertos doídos que ganhou hoje, assim: inexplicáveis e desnecessários.
Eu quero estar ao lado dela, caminhar com ela e mudar tudo que não nos agrada, não somos de ficar paradas e isso tudo de errado no mundo não há de ficar assim!
Um alguém machucou o meu amor e vamos cobrar caro por isso, seja este alguém um sentimento, uma ideia ou um soco no estômago, estampando na nossa cara que existe covardia e maldade no mesmo mundo que queremos ver paz.
Ela ficou com a voz fraca e triste, e isso não se faz! Sua voz deve voltar imediatamente aquele tom maior, estremecendo ouvidos e corações, cantando emoções de dar calafrios na nuca, saindo levemente de sua boca para o restante do universo sentir beleza.
Por tudo que é mais precioso, eu vou encontrar com ela, beber as últimas lágrimas e dividir as batidas de um coração machucado. Depois vamos seguir lado a lado, eu sei que vamos, (e temos muito a caminhar). O coração vai ficar bem, meu bem, nós vamos ficar juntas e fortes para fazer no mundo e nas pessoas revoluções com o nosso amor. (!)

sexta-feira, 12 de abril de 2013 0 mil caóticos

Desculpas Sinceras

Eu desculpo você sinceramente e definitivamente: para nunca mais ser e para nunca mais doer em nenhum de nós. Desculpo ainda que você nunca tenha me pedido desculpas. São desculpas inquestionáveis, independentes, não sujeitas a termo, condição ou encargo.

Desculpo pelas promessas quebradas, pelas palavras não ditas. Desculpo a sua ausência e a sua falta de sensatez quando eu precisei, de verdade, de você. Desculpo por você ter me julgado, por ter me criticado, por não ter me compreendido. Desculpo a sua falta de fé.

Também te desculpo pelo depois. Pelas noites que não dormi, pelos dias que perdi. Pelas festas que não fui, pelos telefonemas que não atendi, pelos amigos que magoei, ainda que indiretamente, pelos amores que deixei de conhecer, pelas viagens que deixei de fazer. 

Desculpo você pelas mensagens e e-mails esperançosos que você me enviou, mas, que, na verdade, nada mais eram do que uma forma mesquinha de me manter sempre presa a você. Desculpo porque sei que você teve medo. Medo de que eu fosse embora da sua vida. Medo de se arrepender por isso. Eu te desculpo, de coração. E também entendo.

Desculpo você, principalmente, por você não ter feito a única coisa que pedi: dizer que o sentimento acabou. Você nunca fez isso. E olha que eu implorei muitas vezes por isso, porque eu queria ser livre e você não deixou. Desculpo você por isso, por ter feito eu sentir a fraqueza e uma dependência tosca, porque depois eu me tornei forte. E fui eu quem tomou a coragem e acabou por dizer as palavras que precisavam ser ditas. A verdade verdadeira é que eu cumpri uma promessa feita por nós dois há tempos: a de zelar pela honestidade, pela verdade e pela amizade. Fiz isso, ainda que eu tenha sido a parte fraca na história. Porque eu tomei folego e soube recomeçar.

Desculpo você, sobretudo. Desejo a sua felicidade, como desejo a felicidade das minhas irmãs. Por isso, eu te desculpo irrevogavelmente e incondicionalmente. Desculpo por mim e por você.

Quanto a mim, sei que aprendi muito com tudo isso. Aprendi a perdoar, sem esperar a contrapartida, a amar sem o devido retorno, a compreender, mesmo sendo uma incompreendida. Preciso dizer: a vida nunca foi tão clara depois de você. Aprendi a viver, a ser quem sou sem culpas.

Portanto, além de ter desculpado você sinceramente e expressamente, aproveito a oportunidade para dizer: obrigado pelo aprendizado.
(A.B.)

segunda-feira, 25 de março de 2013 1 mil caóticos

memória de uso diário

ver o amor como um abraço curto pra não sufocar.
quarta-feira, 20 de março de 2013 0 mil caóticos

O desejo a contar o segundo pro fim.


















Quando o amor se acabou e o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou nos recantos do teu
E o luar se apagou e a noite emudeceu
O frio fundo do céu foi descendo e ficou

Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei, para lá do fim
É preciso partir é o preço do amor.

Vou deixar-te no fio da tua fala.

Sobre a pele que há em mim tu não sabes nada.
Vou deixar-te no frio da tua fala.

Na vertigem da voz quando enfim se cala.



sábado, 9 de março de 2013 0 mil caóticos

Carta para ela.


Aqui nesse exato momento, olho pela janela e tem algumas nuvens cinza. Mas em alguns cantinhos o azul toma conta e preenche. Venta bastante. Escuto música e vezenquando chacoalho o snow globe com um cristo redentor dentro e a inscrição I ♥ Rio. Quando chacoalho em vez de neve são pequeniníssimos papeis coloridos que brilha dentro. Como poderia mesmo que em uma bola de vidro ter neve no Rio? Imagino que o Cristo deve se sentir preso lá dentro mesmo com tantas cores. Mas aí lembro que cristos de gesso não se importam em ficar estáticos. Isso me lembra a escadaria Selarón e todos aqueles azulejos coloridos. E tinha um abraço que ficou lá perto no dia em que vim embora, era uma menina que me mostrou Clarice Lispector e as ruínas (as do parque e as minhas). Eu aí lembro que nessa época eu aprendi que arte é quando você vive o que ama.
- (pausa) -
Volto pros trabalhos (sim, trabalho escutando música). Sempre quando fica pesado demais, cansativo demais eu paro e pego papéis. Faço caixinhas. Acendo incenso. Acendo um de flor de laranja que é pra lembrar de quando eu sempre queria comer o bolo quente assim que minha mãe tirava do forno.
“–Menina, quente faz mal!”.
Mas eu saia fugida com um pedaço de uma mão para outra mesmo assim. Assoprava na boca o bolo quente e ficava sentindo cheiro de laranja. Mas o que é que eu vim falar aqui mesmo? Ah, eu vim falar de saudade. É que essa coisa toda de lembrar de tanta coisa e de tanta saudade tanta, me lembrou das lembranças tantas e da saudade que sinto de você.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013 0 mil caóticos

Let it rain














É tão difícil se esconder de si mesmo
O tempo é o castigo da alma
E nada alivia a saudade
Nem a ilusão, nem a verdade
Que o ontem foi bom demais
Nem palavras são mais ditas
As promessas já esquecidas
Agora o sonho e a realidade
Andam juntos na contramão
As lembranças me perturbam
Tiram meu sono
Mas fecho os olhos
Há um pouco de ti no meu coração
Pois prefiro ficar perdido
Que ficar sem você
E ver o meu passado em decomposição...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013 1 mil caóticos

De partida













Lembro daquele dia que você se foi
Queria coragem pra seguir viagem
E sorria pra disfarçar
Como se meu delírio fosse um dia te salvar
Meu bem
Tudo aqui ainda está por um triz
E se algum dia não te amei 
Me diz.
O que te fiz?
Eu só sonhei demais
A tempestade continua em mim
Nossos livros, nossos discos
Ainda estão aqui
Não sei ao certo
Em que caminho deixei
Quando foi que quis
Desistir de você
Meu amor
O tempo é feroz
E se a vida passar por nós
O que vai restar da nossa historia?
Dos nossos dias felizes
Dos nossos deslizes
De tudo que agente sonhou
Só noites vazias
E lembranças que tiram
A paz do nosso dia-a-dia?
Foi você quem me trouxe inspiração
Me ensinou a trocar palavras por olhares
E esquecer um pouco da razão
Sem você cada dia é igual
Meu coração é um quarto vazio
Porque ninguém me conhece 

como você.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013 2 mil caóticos

Porto Seguro















A tua ausência
Marca a minha dor
Ás vezes ainda sinto 
No meu corpo o teu calor
Fecho os meus olhos 
E escuto o barulhinho bom
Que vem do mar, o nosso som
Trilha sonora do amor
Eu olho o telefone
Você não me ligou
Pra gente se encontrar
Saber se ta no tom
Nossa paixão
Eu tento não pensar
Mas sei que foi em vão
Todo plano que eu fiz pra te manter feliz
Junto a mim
Quem nunca sofreu por amor
Não entende a essência da dor
Quando agente se entrega demais
E vê que aquele sonho se vai
Quantas vezes volto a lembrar
Dos olhos seus meu porto seguro
E do pedido meu pra você ficar
Agora andas longe em outro rumo
Mas saiba que eu largo tudo
Caso decida voltar...

domingo, 24 de fevereiro de 2013 0 mil caóticos

Fuga














Eu fico andando 
Pelas ruas da tua solidão
E no deserto não sei ao certo
Se é um sim ou não
Pelos sorrisos "maquináveis"
Espalho o passado pelo chão


Pergunto ainda se aquele beijo

Foi desejo ou enganação
E o pensamento sobrevoa
A ilha da minha escuridão
Tenho certeza que o seu olhar 
Perpetua a minha escravidão


Chove lá fora,faz tanto frio

Eu queria tanto acreditar
Nas tuas promessas "inabaláveis"
Onde o tempo pode não levar?


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013 0 mil caóticos

Nostalgia



Os dias tem passado tão devagar...
Mas o tempo continuar a desbotar 
Aquelas páginas da minha vida.
Olho ao redor e vejo a solidão
E agora restaram apenas fotos antigas.

Você tocou minhas lágrimas com seus lábios
Você tocou meu mundo com as mãos
Você se deixava levar...
... E eu te levei a extremos.
sábado, 16 de fevereiro de 2013 5 mil caóticos

O medo

Eu sei que não sou fácil, me sinto como uma bomba relógio. E me transformei numa medrosa, eu que sempre me joguei de cabeça. Eu tenho medo de intimidades. Tenho medo delas levarem a beleza do que se constrói aos poucos. Delas levarem o amor que pode surgir. Não consigo não sentir isso agora. Eu fico com medo de ser magoada. De magoar alguém. De perder a solidão para sofrer. A solidão parece tão segura. Tão confortável. Eu tenho medo de ser só corpo, como fui quase a minha vida toda. Levada pelo desejo a cima de tudo. Acho que eu queria amor, que queria amar e ser amada. Mas agora tenho medo disso. Tenho medo de dormir junto, de ficar olhando no olho encantada, de pedir o café da manhã numa padaria só porque pra mim é inusitado. Tenho medo de cozinhar junto, tomar banho, de falar da família e mostrar o quanto sou ruim no violão. E quando eu digo que não quero nada com ninguém é verdade, é medo, é o que sinto agora. Sinto que é melhor pra mim, pra minha proteção e para as dos outros. Sinto como se eu fosse uma casca de ovo que pode quebrar a qualquer instante. Estou sensível.Tudo mexe comigo lentamente como se desmanchasse nas horas. Mas isso não é ruim. Pode parecer melancólico mas eu construí um suporte dentro da solidão muito forte. E tenho medo de perde-lo e ficar sem chão. E eu sou sonhadora demais, romântica demais. Eu nunca percebi como, nem quando mas passei de uma pessoa altamente sexual e que só vivia de carne sem viver sentimentos, para uma mocinha cheia de amor, cheia de querer bem, cheia de romantismos e cheia de medo.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013 0 mil caóticos

Finitude


O amor já vai embora
ou perde a condução?



 



A melhor parte do fim é quando nos livramos de coisas ruins que nos cercava. É quando nos sentimos aliviados de nem sequer lembrar do rosto de quem nos fez tanto mal. É quando entendemos o quanto alguém pode trazer o nosso pior lado e o que podemos fazer para que isso nunca mais aconteça. É enxergar que a questão não é ter tentado de menos. Algumas relações já nasceram com a data marcada pra acabar. A parte boa do fim é quando nos enxergamos melhor, quando revemos nossa luz interior e quando há o esquecimento de todo um passado que no fundo não era importante. A vida nos traz coisas tão interessantes. Pessoas, momentos, sorrisos verdadeiros, paixão, tesão, felicidade real. Se ver refletido no espelho e saber que você tem amor. E não é o amor dependente, nem que precise de outrem para existir. Nesse caso, a finitude é o melhor presente, é a melhor coisa que poderia ter acontecido.



"Alguns relacionamentos são produtivos e felizes. Outros são limitantes e inférteis. Infelizmente, há de ambos os tipos, e de outros que nem cabe aqui exemplificar. O cardápio é farto. Mas o que será que identifica um amor como saudável e outro como doentio? Em tese, todos os amores deveriam ser benéficos, simplesmente por serem amores. Mas não são. E uma pista para descobrir em qual situação a gente se encontra é se perguntar que espécie de mulher e que espécie de homem a sua relação desperta em você. Qual a versão que prevalece? A pessoa mais bacana do mundo também tem um lado perverso. E a pessoa mais arrogante pode ter dentro de si um meigo. Escolhemos uma versão oficial para consumo externo, mas os nossos eus secretos também existem e só estão esperando uma provocação para se apresentarem publicamente. A questão é perceber se a pessoa com quem você convive ajuda você a revelar o seu melhor ou o seu pior. Você convive com uma mulher tão ciumenta que manipula para encarcerar você em casa, longe do contato com amigos e familiares, transformando você num bicho do mato? Ou você descobriu através da sua esposa que as pessoas não mordem e que uma boa rede de relacionamentos alavanca a vida? Você convive com um homem que a tira do sério e faz você virar a barraqueira que nunca foi? Ou convive com alguém de bem com a vida, fazendo com que você relaxe e seja a melhor parceira para programas divertidos? Seu marido é tão indecente nas transações financeiras que força você a ser conivente com falcatruas? Sua esposa é tão grosseira com os outros que você acaba pagando micos pelo simples fato de estar ao lado dela? Seu noivo é tão calado e misterioso que transforma você numa desconfiada neurótica, do tipo que não para de xeretar o celular e fazer perguntas indiscretas? Sua namorada é tão exibida e espalhafatosa que faz você agir como um censor, logo você que sempre foi partidário do “cada um vive como quer”? Que reações imprevistas seu amor desperta em você? Se somos pessoas do bem, queremos estar com alguém que não desvirtue isso, ao contrário, que possibilite que nossas qualidades fiquem ainda mais evidentes. Um amor deve servir de trampolim para nossos saltos ornamentais, não para provocar escorregões e vexames. O amor danoso é aquele que, mesmo sendo verdadeiro, transforma você em alguém desprezível a seus próprios olhos. Se a relação em que você se encontra não faz você gostar de si mesmo, desperta sua mesquinhez, rabugice, desconfiança e demais perfis vexatórios, alguma coisa está errada. O amor que nos serve e nos faz evoluir é aquele que traz à tona a nossa melhor versão"
Martha Medeiros




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013 1 mil caóticos

Um corpo sem memória



A noite estava quente. Não pelo clima, um tanto frio naquela festa escura. Mas cada centímetro da pele dela parecia corar. Vermelhos se espalhavam deixando vestígios, em meio a música alta e todos aqueles olhares curiosos.  Ela pensava em fugir, em fingir, em mentir que não queria nada daquilo. Sentia como uma corrente elétrica os arrepios que bailavam pelo corpo todo, dificultando a respiração e aumentando o calor. Quem poderia esperar? Depois de tanto tempo, desencontros, traições, mentiras, verdades e dores ele estava ali. Confissões, arrepios, silêncio... Quanto mais falava mais queria calar. Não conseguia. As palavras - essas que nunca tiveram espaço entre eles - estavam com força total, sendo expurgadas em meio a uma multidão de desconhecidos. Não parecia ser certo, não pra ela. Ela poderia esconder toda a fragilidade numa postura teatral que lhe daria segurança para mentir descaradamente. Poderia como um mantra, repetir que dada às circunstâncias era melhor que isso não acontecesse. Mas estava ali, desarmada, lisérgica e totalmente entregue aquelas sensações.  

Depois de mais danças e menos palavras saíram dali. Ela deitou na grama com o ópio na mão, todas as vontades no corpo inteiro e se deu total liberdade para ser o que era. Em meio aos passantes muito próximos, ele a beijava e a fazia rir de susto, de prazer e de medo. Só havia as luzes das estrelas ali e eles não conseguiam mais ficar parados por um segundo. Ele a tocava sensualmente por debaixo de sua saia, tocando suas coxas com força. Com as mãos famintas agarrava seu cabelo e percorria com a língua sua nuca, seus seios, seu ventre. Rapidamente tirou cada peça da roupa dela, deixando-lhe apenas as botas. Não havia tempo para pormenores. Lambeu seu sexo avidamente. Segurando firmemente sua cintura, falava obscenidades no seu ouvido e a penetrou. Ela gemia alucinada a cada estocada quente que lhe dava. Gritava seu nome. Ele a encarava feroz, não a deixava desviar, beijava-lhe a boca, mordia, lambia. Ela gozava e gemia infringido suas próprias decisões, se entregando fatalmente ao seu desejo. Assim a noite quase virou dia. Dormiram abraçados. Ela nunca conseguia se acostumar com o sono do outro, a posição do corpo, o ritmo, a respiração. Mas eles tinham essa química, como o resto de tudo também. 

Quando acordou percebera que ele havia partido. Lavou o rosto e descabelada sentia o cheiro do sexo em cada parte do seu corpo, nos seus pelos e do pelo de todo pelo e da pele poro epiderme. Tentou capturar cada segundo, cada movimento, o beijo, o gosto, o toque, o sexo. Todos os fragmentos da noite passada. Ela se olhava no espelho. Um gole de vinho, um cigarro. Depois de uma sequência de cigarros, percebeu distante que ele sabia e ela também. Por algumas horas, quase irreais, eles esqueceram todas as dores que ela havia causado. Esqueceram que nada havia para eles além dessa coisa ordinária de febre e urgência. E olhando no espelho entendeu as palavras gastas, em detrimento de toda sedução física. Mudava tão rápido de opinião. Tão escorregadia. Tomou banho, colocou um batom vermelho e com um sorrisinho no canto da boca saiu. Pelas ruas seus olhos se debruçavam avidamente pelo desconhecido. Sentia o calor do sol. É que o desejo anda com suas próprias pernas e não controla sua boca nem estômago. Corpo desmemoriado. Um corpo sem memória.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013 0 mil caóticos

Querendo ser vento
que passa por todos os lugares
mas não fica preso a nenhum.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013 0 mil caóticos

Carta do poeta



És tu a morena de todas as canções, personagem dos melhores livros, a vilã de filmes, a poetisa incompreendida, de palavras corpulentas, agressivas, de amores lestos.

És aquela que encanta, intimida no olhar e afaga com sussurros. Sensualidade apaixonante, a graça de menina, um sorriso e sobrenome de anjo... A Colombina de todos Pierrot.

Demarcar linhas sobre ti morena, não me compele, nem assunta... Só provoca e instiga. Vens de um recinto aberto, alheio, indiferente... Descompromissada com linhas limites, ou preceitos determinados. Chega como um redemoinho doido, sem permissão, ousado, devastador por natureza. Muito rápido... Mais que assinala pra que veio, deixa marcas, surpreende-se.

Queria poder te capturar nos dias de saudades, tomar banho de chuva na precocidade das madrugadas, sorrir com a ausência de piadas, te beijar com anseio deslocado, mais que não aja promessas, nem juras; Nenhum “romance”... Pois são tediosos e nos roubam à liberdade, a petulância...

Nada por inteiro, nada de “corpo e alma”... Somente a conversa, o abraço, o cheiro, o carinho... A amiga! É perfeito porque não procuramos excelências, primor nem requinte... A poesia a qual cravamos, e que escancaramos veio sem dor, sem magoa, sem lamento, sem versos... Apenas com sons, ritmos, murmúrios...

O sentimento apropriado?! Um amor fugitivo, um gostar desobrigado, uma adoração eterna... Enquanto dure. Se sentir falta é porque é raro, confuso, hesitante. Não te guardo em nenhum lugar definido, a inconstância não permitiria... A minha e a sua.

Desprender! Os laços são desatados, frouxos... Soltos! É a maneira adequada para estarmos ligados de alguma forma. Talvez, és tu morena, a incompreendida que mais me compreende!
Esta guardada... Em algum lugar interessante! O meu coração bate muito rápido, não vou te deixar aqui não.
(Alan Franca)
0 mil caóticos

medo.

 Eu tenho medo de abrir a porta, que dá pro sertão da minha solidão.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012 0 mil caóticos

Amorragia

Hoje


nosso amor morreu
doente, feio e fraco.
0 mil caóticos

PÉS



Pés finitos
Pés errantes
Pés sozinhos
Pés distantes

Pés sombrios
Pés amantes
Pés tão frios
Pés adiante

Pés unidos
Pés que voam
Pés tristonhos
Pés que doam

Pés que cuidam
Pés que fogem
Pés que voltam
Pés tão fortes

Pés de dúvidas
Pés desalento
Pés que aprisionam
Pés ao relento

Pés que aquecem
Pés de desejo
Pés que esquecem
Pés que já não vejo
Pés...

terça-feira, 16 de outubro de 2012 0 mil caóticos

O amor acaba



O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir;  nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor;  tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos
segunda-feira, 7 de maio de 2012 4 mil caóticos

Nós alucinados e vagabundos estamos em extinção

"Laying on the road,
Waiting to be crushed
That is how you used to
Hunger for my touch
Dance, little devil - Dance.
Grasping to my flesh
Like hanging from a rope
That is how we used to
Give each other hope.
Dance, little devil - Dance."
[Asaf Avidan - Devil's Dance]


Naquelas tardes enxergava nele um quê de belo, uma singeleza daquele vulto na janela olhando lá embaixo as vidas que passeavam cotidianas com suas pressas, suas preocupações (que será que pensavam?). Percebia naquela sombra e seus cigarros, suas dores, uma beleza quase que doída, com algo que queimava a íris, - refletia - parece que refletia todas as perguntas que se passavam naquela mente. Não era do tipo comum, sempre escutava as pessoas com um olhar de soslaio como se as tivesse analisando ou com uma desatenção autista agonizante. Gostava de mastigar poesia com um gole de cachaça. Sempre tinha respostas alucinadas para as questões mais comuns. Eu sempre soube que vivia no seu próprio mundo. Ele foi embora a 1º vez quando éramos adolescentes. Depois que a mãe dele morreu. Simplesmente sumiu. Reapareceu anos depois com uma pequena cicatriz nos lábios e sumiu novamente várias outras vezes. De todas ás vezes que estávamos juntos, fumava um cigarro atrás do outro, cantarolava músicas de Janis Joplin meio distante, principalmente quando chovia. Tinha um caso quase indecente com a chuva. Lembro de vê-lo ficar horas na janela. Aquela áurea inatingível lhe era tão característica. Sempre saía dos bares acompanhado. Cada noite um corpo diferente, num apartamento diferente onde jamais voltaria. Mas na noite seguinte sempre aparecia em minha casa com o ar melancólico cada vez mais distante. Parecia um fardo (para mim e para ele) essa atração imensa que causava. Aceitava isso quase como uma prisão de dividir seu corpo com aqueles homens e mulheres que se enroscavam naquela teia. Nossos amigos me alertavam que ele era perdido e um pouco promíscuo. Todos viviam suas vidinhas com os seus não-questionamentos-sobre-o-mundo. Eu não me encaixava nisso. Naquela época bebíamos quase todos os dias. Estávamos presos em nossa liberdade. Buscávamos algo que nem mesmo sabíamos o que era. Pessoa boêmias numa cidade não boêmia, éramos bichos em extinção. Alucinados e vagabundos. Uma espécie rara. Sempre achei que ele tinha uma coisa, tão ser-humano, tão fatalmente auto-destrutível. Algo que de tão incontrolável acabava por machucar até ele mesmo. Nunca conheci ninguém que tivesse maior coleção de discos e livros. E nem que tivesse viajado tanto pra voltar pra aquela mesma cidade-dormitório. Ele realizou tudo aquilo que sempre sonhei e nunca fiz (por falta de coragem ou vicio de mesmice?). Tinha a habilidade de descobrir prazeres em cada boteco sujo daquele lugar. Lembro-me dele gastar todas as minhas moedas (na época eu juntava todas para uma viagem para Londres que nunca se concretizou) em músicas tristes e agressivas num bar estranho na rua 13. Foi numa dessas noites que ele chegou totalmente transtornado. Fosse pelas drogas ou não, dançava tão freneticamente que parecia ter uma caixa de som dentro do seu cérebro. Naquele dia todos exageramos demais. Eu me sentia um porta-fumaça ambulante e já não aguentava mais. Ele me encontrou na porta de saída. Propôs que saíssemos dali e fossemos pro meu apartamento. Era de praxe, ele sempre dormia lá. Mas naquele dia foi diferente. Tinha uma beleza estranha nos olhos. Me entregou seus discos preferidos de Janis que estava no carro e falamos por horas sobre os problemas mundiais, os últimos discos e sobre as minhas tentativas frustadas de ser escritor. Tomamos vinho e parecia que tudo no apartamento desmanchava lentamente na minha cabeça. Eu não aguentava mais ficar acordado e senti que ia passar mal. Acordei nou outro dia com roupas limpas, na minha cama. Hoje faz um mês que encontrei aquele bilhete no bolso da minha calça.


"Desculpe sair assim sem avisar. É que desato a falar e caio nesse abismo sempre. Toda essa verborragia de quando nos encontramos. Parece que estamos sempre ali nas entrelinhas. Eu nunca estive pronto pra você. De todas ás vezes que fui e voltei a esse lugar e vi todas as suas transformações. Eu nunca mudei! Fiquei a mesma pessoa estacionada no tempo. Essa maldita fome de mundo! Você não. De um garoto ingênio para um adolescente rebelde para um cara brilhante e escritor promissor. Você viveu tudo que eu queria viver. Você é tudo o que eu queria ser. Gosto do jeito que seu rosto fica quando está com vergonha, um rosto que há tempos eu já sei e agora tão novo e desconhecido um rosto bonito que me assusta. É tanto tombo, é tanta merda que agente faz e tudo é tão frágil que ás vezes é difícil acreditar. Eu não sei usar amor. Talvez o meu amor não seja usável. Eu tive algo uma vez. É uma droga esse sentimento-grito, cara. Porra, tenho que confessar, odeio abandonos. Não sei lidar com essa merda. Porque quem entra, permanece, mesmo depois de partir. Ela era tudo o que eu tinha sabe? Ela foi tudo o que eu tive, minha melhor amiga. Eu a vi perder toda a sua beleza e juventude. Ali, as seringas eram outras(...). Eu tenho HIV a três anos cara.Todo o sumiço, toda a distância. E todo esse tempo eu mudei tanto com você. Eu menti pra mim mesmo. Transava com aquelas pessoas, tanta gente fútil que nem ao menos sabiam o tipo de cigarro que eu fumo. Juro que por vezes tive vontade de não usar proteção e mostrar toda a dor aquelas pessoas dissimuladas. Mas quem me protegeria de mim mesmo? Tenho muito ódio em mim. Ódio e dor. Eu nunca vou poder ter um filho. Um filho meu saca? E eu nunca serei suficientemente bom pra você. Porque eu nunca mais vou saber te acordar com um beijo, eu não vou ser o cara que te leva café na cama. Caos, confusão, nenhum dinheiro e horas de conversas fumacentas na sala da minha casa vazia. É só isso. Porque se eu ficar o que será de nós além de restos de poesias mortas e empoeiradas? Pois sempre ao amanhecer apesar do esforço de ver as cores enxergaríamos tudo em preto e branco. Faz um ano que só penso em sumir, a cada dia de chuva me corroí mais e mais e sei que se eu continuar eu vou desaparecer como uma fotografia velha que vai perdendo a cor. Não quero que você lembre de mim com essa dor. É inevitável sabe? Eu vou consumir cada gota de sua alegria. Não chore. Há muito mais pelo que viver. Sempre haverá noites blues e um bom café fresco pra tomar.  Lembro um dia de muito ópio no seu apartamento e você me disse: - Nós alucinados e vagabundos estamos em extinção. E estamos mesmo."
 
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