a facilidade de se perder

"a gente se apertou um contra o outro.
a gente queria ficar apertado assim porque
nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo
a metade perdida do corpo do outro."
(caio fernando abreu)

"Ele diz que a gente quer sempre o que parece
ser melhor por não ser da gente, que a gente quer
essa mania de tentar se completar com
a incompletude do outro, a gente quer acreditar
que somos metade de algo, de alguém pra ter
porque continuar a andar, a se levantar, a comer...
mas quando a gente tem o outro
por inteiro enfim; a gente passa a preferir
a gente pela metade..."
(Taíme)





O ser humano nasce sozinho. Coisa óbvia, não? NÃO. Nascemos sozinhos, mas incutimos logo na nossa mente que ‘temos’ que estar acompanhados ao longo da vida. Você constrói seus planos, suas vontades e aí alguém aparece na sua vida e você se torna nós. Seus planos por vezes, deixam de ser tão importantes para dar lugar a vida a dois. Se você adora conhecer pessoas, você vai sair ou viajar bem menos. Se você adora momentos de solidão, vai esquecer qual foi a última vez que ficou só com seu jazz, cigarros e cafés na madrugada de sábado. E assim você vai perdendo aos poucos aquilo que nos deixa mais charmosos e interessantes: individualidade. Você quase se acostuma. Dividir o espaço, a vida é uma caminhada. Seus lençóis não têm mais só seu cheiro, no seu banheiro tem outra escova de dente e no seu quarto tem outra bagunça que não a sua. São nesses detalhes que vemos o quanto é complicado. Nos dias que você ta carente o outro também pode estar. Se você chega de mau-humor porque seu dia foi terrível, surpresa! o outro também está estressado. Para dar certo é uma luta diária. Estar junto exige isso, paciência, compreensão, dedicação, atenção e o respeito com o momento de silêncio do outro, do espaço. Mas aí é que está. Nem sempre você tem forças, nem sempre você tem paciência, nem sempre você é compreensivo e muitas vezes são nesses momentos que sua individualidade pulsa mais que escola de samba no carnaval. Afinal, você é só um ser humano né? É muito mais fácil se perder no meio do caminho. É muito mais fácil se deixar levar pela rotina, pela falta de conquista diária, pelo chamado para as ‘novidades’ lá fora. É fácil querer alguém, querer não 'ser sozinho'. Dificil é saber estar junto. Saber ser dois é uma das coisas mais complicadas na nossa sociedade romantizada.

15 comentários:

tatiana hora disse...

eu sinto falta de um amor, poréeem, não sei se sei amar não.
eu me acostumei a um estar sozinha, mesmo que não queira.
às vezes crio espinhos se alguém ameaça essa individualidade.
como já criaram espinhos pra mim.

tatiana hora disse...

Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram.
Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos -
e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou
agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no
fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com
isso.'
CFA

autofágica disse...

esse texto de Caio me toca profundamente.

autofágica disse...

Esses espinhos Tati, são mais normais do que você pensa.

'eu ás vezes acho que não sei usar amor. É, já pensei isso. E quer saber? Às vezes me pego pensando que eu não sei usar mesmo. Assim: não me cabe. O amor não é usável- pensei. Talvez o amor, essa palavra, seja exatamente isso. O não-saber. Sentimento-grito. Objeto-pulsante.'

Tawany Paixão. disse...

Caio era virginiano... haha :]

Cara, tomei como lema de vida há bastante tempo "quem sente tédio quando está sozinho é porque está em péssima companhia". E não é?
Quem melhor me conhece, ainda que conheça pouco, sou eu mesma, pra que ter alguem pra me trazer mais complicações? (haha. ok. justamente para isso. adoro complicações.)

Mas o que eu quero dizer é que alguém meteu na cabeça do ser humano que é impossível ser feliz sozinho.
Acho que isso é se subestimar. :P
Beijo!

mais amor, por favor. disse...

Cada vez que eu venho aqui saio surpresa com cada palavra que li. Parabéns mais uma vez minha linda.
E ah, como grande fã de Caio que sou, eu amo aquele trecho dele que tu postou.
Beijo!

NaNa Caê disse...

Caio F ... não tem como não amar, não é mesmo?

Junkie careta disse...

Sorry pela invasão baby,mas, a minha compulsão por Caio F. não me deixou passar ileso, não resisti e resolvi invadir seu espaço, à propósito: muito agradável, inteligente,elegante e conflituoso, como tudo que Caio escreveu.

Sobre o tema, depois de 2 casamentos de experiência,o meu vício pela liberdade finalmente entendeu que também é muito libertador renunciar de alguns aspectos da liberdade para arriscar acreditar nessa experiêñcia única que chamamos amor,e, a cumplicidade que se constrói compensa alguns trunfos que a liberdade dá.Condeno a atitude contemporânea do culto exagerado à individualidade egoísta, embora também ache condenável a idéia de sempre depender emocionalmente de ter alguém para ser feliz. Acho que são experiências diferentes uma da outra e, convém que se aprenda a estar pronto para vivermos as duas.

Tenho um blog, o Spleen Rosa Chumbo, onde brinco de praticar alguns "Caísmos"(sem o talento do mesmo,claro...) e,compartilho as vísceras com os amigos.Apareça quando puder.

Parabéns pelo espaço . Espero que vc não se incomode que eu passe por aqui mais vezes.

Grande abraço

autofágica disse...

>mais amor, por favor.
>Nana Caê
>Junkie

vou escrever uma parte do que escrevi como resposta para o junkie no blog dele...



"Quanto a Caio(...)
não há outro escritor que mexa tão bem com minhas falhas, pausas e lembranças que ele. Bukowski e Anais Nis mexem com meus instintos e perigos, minha boca vermelha. Clarice joga meu eu bem na minha cara, esfregando com força até sair sangue. Caio não. Ele me fere e me lambe e me abraça e diz que tudo NÃO vai ficar bem. ('e lá vem o amor nos dilacerar de novo...')

Ayalla."

Thalita Santos disse...

Estar junto é complicado. E se analisarmos descobrimos que talvez possa ser mais complicado que estar sozinho. Afinal só é você com você mesmo nessa luta diária.Junto a alguém tem que haver cautela, ninguém é igual e ninguém consegue estar sempre bem.

Adorei a citação do Caio no início.Ele definitivamente falava por nós.
A outra citação eu não conhecia, mas também gostei muito.

bj!

Junkie careta disse...

Baby,
O seu texto já possui uma inquietação, entre outras coisas, provavelmente por suas referências. Pessoas como vc, que possuem esse olhar mais critico e passional pelo apuro estilístico, pela originalidade, pela visceralidade (e nesse momento me atrevo a me considerar igual à vc), como os que se encontra nos textos de Caio, vão sempre ter essa marca da "busca”, pelo equilíbrio, ou pelo desequilíbrio, talvez! Sofro exatamente do mesmo mal. Sou capaz de começar o dia com sede de doçura “(quando as atribuições permitem, claro), e nesse momento busco Neruda, Emily Dickinson,Florbela. No final da tarde possa estar buscando pureza lendo Quintana,ou me ver nas inquietações de Pessoa no começar da noite. No final dela, certamente vou buscar algo mais ácido, sujo, maldito (tenho uma certa atração pelo "errado),como os beatniks: Corso, Fante, Kerouac,ou o inclassificável e infaltável velho Buk. Posso buscar calor também, e nessa hora, a sua Anais, Miller e todos aqueles adoráveis depravados me satisfazem a alma.Posso querer delírar(sempre quero em algum momento do dia),nessa hora Rimbaud é minha auto estrada.Na madrugada,é certo: Caio em algum momento será minha igreja, minha capela dentro da casa. Inevitável, com sua capacidade absurda de expor suas vísceras e de me fazer me ver escorrendo pelo seu texto(não sente isso quando o lê?). Até hoje, depois de tanto tempo, "para uma avenca partindo” me comove profundamente. Clarice? Essa seria redundante falar da grandeza. Toda essa ordem pode ser invertida.
Some a isso as referências musicais (sou músico) com certa fixação pelo art-rock, o pós punk, e o indie rock(seja lá o que isso signifique hoje...)Beatles e... Dá nessa salada de maionese com nitroglicerina que é essa minha cabeça desarticulada e sonhadora.

O que quero dizer é que pessoas como vc e eu, com todas essas referências, vão sempre sofrer dessa vontade de “equilibrar” essas mesmas referências e criar o seu próprio estilo, acima de tudo sendo fiel com o que sente e quer dizer, não fazendo disso uma fórmula. O nosso compromisso é com a nossa emoção. Não é isso?

Ri muito quando li vc dizendo “com asco a casamento”. Meus amigos dizem que isso é uma espécie de “motto” meu. Eis aqui a grande contradição: ter casado duas vezes. Mas, nós que escrevemos, somos antagônicos mesmo, né? Não se surpreenda se o tempo e os pulsos cortados pela vida te fizerem mudar de idéia. De qualquer modo, essa sua clareza em se perceber: “inconstante, individualista e egoísta”,como vc se descreve, revela muita maturidade no seu relacionamento consigo mesma. É preciso ser muito maduro para se perceber isso. Conheço pessoas que vivem uma vida inteira e continuam mentindo para si, negando isso.

Quanto à sede do mundo... agradeça aos deuses por ainda tê-la. Isso parece só piorar com o tempo.

Quero mais textos aqui, não seja eu que só escrevo quando os textos querem sair, domine-os, mostre quem manda.

Grande prazer dividir essas inquietações com vc.

Sorry por escrever tanto no espaço que é seu.

Até a próxima

mais amor, por favor. disse...

Mas e se não fosse o romance, onde estariamos né?
Tu não sabe o quanto gosto das tuas palavras. Beijo linda!

e.m. disse...

em tudo isso é que tão cedo passa tudo quanto passa. em tudo há uma tênue linha que rompe nos momentos delicados. mas a gente costura tudo toda hora, todo instante. delicado é aproveitar e viver e reconhecer(-se) o(no) outro...


palavras intensas. gosto dessa sua sensibilidade.

=*

Jéssica R.Sei... disse...

... mas tenho medo.

Jéssica R.Sei... disse...

eu mesma parto o meu coração... acredito que dói menos. vai que essa pessoa não sabe quebrar ele do jeito certo dele se regenerar?
não. definitivamente.
sou autosuficiente em decepções

"I'm a little bit Alice. Goodbye."