Nós alucinados e vagabundos estamos em extinção

"Laying on the road,
Waiting to be crushed
That is how you used to
Hunger for my touch
Dance, little devil - Dance.
Grasping to my flesh
Like hanging from a rope
That is how we used to
Give each other hope.
Dance, little devil - Dance."
[Asaf Avidan - Devil's Dance]


Naquelas tardes enxergava nele um quê de belo, uma singeleza daquele vulto na janela olhando lá embaixo as vidas que passeavam cotidianas com suas pressas, suas preocupações (que será que pensavam?). Percebia naquela sombra e seus cigarros, suas dores, uma beleza quase que doída, com algo que queimava a íris, - refletia - parece que refletia todas as perguntas que se passavam naquela mente. Não era do tipo comum, sempre escutava as pessoas com um olhar de soslaio como se as tivesse analisando ou com uma desatenção autista agonizante. Gostava de mastigar poesia com um gole de cachaça. Sempre tinha respostas alucinadas para as questões mais comuns. Eu sempre soube que vivia no seu próprio mundo. Ele foi embora a 1º vez quando éramos adolescentes. Depois que a mãe dele morreu. Simplesmente sumiu. Reapareceu anos depois com uma pequena cicatriz nos lábios e sumiu novamente várias outras vezes. De todas ás vezes que estávamos juntos, fumava um cigarro atrás do outro, cantarolava músicas de Janis Joplin meio distante, principalmente quando chovia. Tinha um caso quase indecente com a chuva. Lembro de vê-lo ficar horas na janela. Aquela áurea inatingível lhe era tão característica. Sempre saía dos bares acompanhado. Cada noite um corpo diferente, num apartamento diferente onde jamais voltaria. Mas na noite seguinte sempre aparecia em minha casa com o ar melancólico cada vez mais distante. Parecia um fardo (para mim e para ele) essa atração imensa que causava. Aceitava isso quase como uma prisão de dividir seu corpo com aqueles homens e mulheres que se enroscavam naquela teia. Nossos amigos me alertavam que ele era perdido e um pouco promíscuo. Todos viviam suas vidinhas com os seus não-questionamentos-sobre-o-mundo. Eu não me encaixava nisso. Naquela época bebíamos quase todos os dias. Estávamos presos em nossa liberdade. Buscávamos algo que nem mesmo sabíamos o que era. Pessoa boêmias numa cidade não boêmia, éramos bichos em extinção. Alucinados e vagabundos. Uma espécie rara. Sempre achei que ele tinha uma coisa, tão ser-humano, tão fatalmente auto-destrutível. Algo que de tão incontrolável acabava por machucar até ele mesmo. Nunca conheci ninguém que tivesse maior coleção de discos e livros. E nem que tivesse viajado tanto pra voltar pra aquela mesma cidade-dormitório. Ele realizou tudo aquilo que sempre sonhei e nunca fiz (por falta de coragem ou vicio de mesmice?). Tinha a habilidade de descobrir prazeres em cada boteco sujo daquele lugar. Lembro-me dele gastar todas as minhas moedas (na época eu juntava todas para uma viagem para Londres que nunca se concretizou) em músicas tristes e agressivas num bar estranho na rua 13. Foi numa dessas noites que ele chegou totalmente transtornado. Fosse pelas drogas ou não, dançava tão freneticamente que parecia ter uma caixa de som dentro do seu cérebro. Naquele dia todos exageramos demais. Eu me sentia um porta-fumaça ambulante e já não aguentava mais. Ele me encontrou na porta de saída. Propôs que saíssemos dali e fossemos pro meu apartamento. Era de praxe, ele sempre dormia lá. Mas naquele dia foi diferente. Tinha uma beleza estranha nos olhos. Me entregou seus discos preferidos de Janis que estava no carro e falamos por horas sobre os problemas mundiais, os últimos discos e sobre as minhas tentativas frustadas de ser escritor. Tomamos vinho e parecia que tudo no apartamento desmanchava lentamente na minha cabeça. Eu não aguentava mais ficar acordado e senti que ia passar mal. Acordei nou outro dia com roupas limpas, na minha cama. Hoje faz um mês que encontrei aquele bilhete no bolso da minha calça.


"Desculpe sair assim sem avisar. É que desato a falar e caio nesse abismo sempre. Toda essa verborragia de quando nos encontramos. Parece que estamos sempre ali nas entrelinhas. Eu nunca estive pronto pra você. De todas ás vezes que fui e voltei a esse lugar e vi todas as suas transformações. Eu nunca mudei! Fiquei a mesma pessoa estacionada no tempo. Essa maldita fome de mundo! Você não. De um garoto ingênio para um adolescente rebelde para um cara brilhante e escritor promissor. Você viveu tudo que eu queria viver. Você é tudo o que eu queria ser. Gosto do jeito que seu rosto fica quando está com vergonha, um rosto que há tempos eu já sei e agora tão novo e desconhecido um rosto bonito que me assusta. É tanto tombo, é tanta merda que agente faz e tudo é tão frágil que ás vezes é difícil acreditar. Eu não sei usar amor. Talvez o meu amor não seja usável. Eu tive algo uma vez. É uma droga esse sentimento-grito, cara. Porra, tenho que confessar, odeio abandonos. Não sei lidar com essa merda. Porque quem entra, permanece, mesmo depois de partir. Ela era tudo o que eu tinha sabe? Ela foi tudo o que eu tive, minha melhor amiga. Eu a vi perder toda a sua beleza e juventude. Ali, as seringas eram outras(...). Eu tenho HIV a três anos cara.Todo o sumiço, toda a distância. E todo esse tempo eu mudei tanto com você. Eu menti pra mim mesmo. Transava com aquelas pessoas, tanta gente fútil que nem ao menos sabiam o tipo de cigarro que eu fumo. Juro que por vezes tive vontade de não usar proteção e mostrar toda a dor aquelas pessoas dissimuladas. Mas quem me protegeria de mim mesmo? Tenho muito ódio em mim. Ódio e dor. Eu nunca vou poder ter um filho. Um filho meu saca? E eu nunca serei suficientemente bom pra você. Porque eu nunca mais vou saber te acordar com um beijo, eu não vou ser o cara que te leva café na cama. Caos, confusão, nenhum dinheiro e horas de conversas fumacentas na sala da minha casa vazia. É só isso. Porque se eu ficar o que será de nós além de restos de poesias mortas e empoeiradas? Pois sempre ao amanhecer apesar do esforço de ver as cores enxergaríamos tudo em preto e branco. Faz um ano que só penso em sumir, a cada dia de chuva me corroí mais e mais e sei que se eu continuar eu vou desaparecer como uma fotografia velha que vai perdendo a cor. Não quero que você lembre de mim com essa dor. É inevitável sabe? Eu vou consumir cada gota de sua alegria. Não chore. Há muito mais pelo que viver. Sempre haverá noites blues e um bom café fresco pra tomar.  Lembro um dia de muito ópio no seu apartamento e você me disse: - Nós alucinados e vagabundos estamos em extinção. E estamos mesmo."

4 comentários:

e.m. disse...

Uma dimensão exótica do real! Belo conto, belas palavras.

mais amor, por favor. disse...

E estamos mesmo, mesmo.
Beijo!

Jéssica R.Sei... disse...

eu comecei a gostar do meu talento de fumante

Junkie Careta disse...

0osto de sua capacidade de descrever os detalhes, gosto de quando vai fundo na alma, principalmente na feminina e trás de lá essas polaroids desses quartos mais escuros, esses lugares quase impenetráveis aos homens.É particularmente nessa hora que sua veia de escritora se revela mais nitidamente,e, quando torna-se matéria estimulante para entender o que mora nesse planeta curioso.

Vejo uma promissora poetisa.


Bjo