Tulipas


Enquanto ela grifava tudo que lhe tocava no livro de Clarice (e era quase tudo), com a ajuda de um marca texto de um romance de magia negra ouvia uma voz doce na vitrola e pensava: Comigo sempre foi tudo ao contrário. É, Caio tinha razão. Tomava um chá de gosto amargo (é, chá. Porque café já lhe consumia as vísceras) naquela xícara desenhada com flores que ele lhe dera no último aniversário. Era a última do conjunto que quebrara todo no dia que o viu com outra na porta do cinema quando foi ver aquele filme, como era mesmo o nome? Não lembrava. As bordas da xícara estavam um pouco quebradas, mas não se importava aquilo era um pequeno lembrete para nunca mais cair no abismo do vazio que era o amor. - Amor! que palavra mais besta, sempre achou. Queria que tivesse outro nome, queria que viesse com um aviso de perigo como aqueles nas carteiras dos inúmeros cigarros que fumava. Devia vir com uma placa, uma fotografia de pessoas perdidas, tristes, numa manhã cinzenta de chuva. A vitrola parou e ela fechou o livro. Olhou para o mini system que ganhara de sua mãe quando foi visita-la no natal. Mas não gostava muito daquilo, a vitrola tinha um chiadinho aconchegante, a poesia dos velhos tempos. Ás vezes se achava tão démodé, como quando sua amiga lhe pediu que comprasse um computador pra-facilitar-a-comunicação-que-escrever-carta-era-tão-antigo-fora-de-moda. Então ela teve certeza, gostava das coisas antigas, de como tudo era. Tinha a alma velha. Cantarolou alguma canção bem antiga e sorriu maliciosamente. Se olhou no espelho e percebeu que talvez estivesse ficando velha, talvez a sua alma lhe estivesse tomando o corpo todo. Aquelas olheiras fundas, daqueles dias, madrugadas, daquelas horas a fio sozinha naquele apartamento que tinha se tornado imenso e ela pequena demais para habitá-lo. Então ela ia ler, lia Clarice, Reinaldo Arenas, Orman Pamuk, Foucault, Oscar Wilde, Florbela Espanca, Jostein Gaarder, Markus Kusac, Vinicius de Moraes, Hilda Hist, Caio F., lia romance, filosofia, livro de receita, lia até livro de macumba, sei lá qualquer coisa que deixasse seus olhos cansados, mas não com sono. Ela nunca tinha sono. Aí ela ia ao cinema, não aquele do shopping Center que ela o encontrara e que ela odiava, não. Gostava daquele cinema antigo que ficava em frente aquela loja de flores onde ela comprou aquelas tulipas e levara pra casa. Era alma velha e gostava de flores. Dava uma dorzinha vezenquando, as tulipas murchando no vaso, os mocinhos juntos no final dos filmes e aquelas olheiras que pareciam enormes buracos. Só tinha isso, a solidão, era a única coisa que era completamente sua, não aquela xícara das bordas lascadas, nem aquele quadro estranho que ele colocara na sala, nem alguns livros e roupas que ele nunca viera buscar. A noite ardia em chamas, ardia em desejo, ardia em solidão, tudo ardia, acordava ensopada de suor. Mas era só dela tudo aquilo, a solidão que a levava pro cinema, pra comprar tulipas, que chorava com ela enquanto comia macarrão com queijo. - Solidão não me deixe, não me deixe, suplicava enquanto as tulipas morriam, as olheiras aumentavam e tudo desmanchava lentamente no calendário infinito que eram as horas/os dias/a vida.

3 comentários:

Nina Sampaio disse...

Nossa, nega! Adoro essa escrita fluente, sinestésica, que atinge olhos, ouvidos, tatos, os mais diversos sentires. Escrita-dor. Bem a la Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, mas bem você de escrever. Fortes e incisivos, os períodos cortam, ferem, mas salvam. Salvam porque está lá o cotidiano a empurrar "almas antigas" a comer macarrão com queijo (e muita solidão) e,d essa maneira, a continuarem, ainda que inexplicavelmente.Entre dores muitas, os cigarros, os cinemas, as xícaras de bordas quebradas, as especulações acerca dos nomes e do que se nomeia, as tulipas e o tempo a correr e a desmanchar-se em suores noturnos...Lindo conto.

e.m. disse...

[não aceite]

Lindo conto, mas tenso! Gosto da ideia, mas não gosto das palavras. Muita dor, dor muita. Solidão, reminiscências etc. Palavras assim parecem que carregam a alma, mesmo que sejam palavras. Coisas alegres tem mais cores como tem aquele apartemento grande, "cheiro de cores lindas de se ler". Mas todo conto contém sua maestria. =*

...Elis... disse...

"ler você" me dá uma vontade enorme de te ler mais... de pegar um cigarro daqueles de palha que adoro e que nem lembro mais do cheiro e apagar a luz daqui da sala, com o computador no colo, torcendo para que nunca acabem os seus contos, os poemas, as escritas por aqui, pois me enchem de vida, descubro sentimentos que nem sabia que estavam aqui em mim e me faz admirar o poder das palavras colocades em uma ordem muito sua e que fazem um sentido diferente a cada pessoa que lê, mexe com dores, valores, pesares, alegrias e muita reflexão.
eh...
sempre bom passar por aqui!
sua escrita pulsa tanto...