O abismo de Ana



Ela olhava as cinzas dos cigarros enquanto desvanecia sentindo o cheiro doce do sangue. Todas aquelas cinzas e a sujeira do seu apartamento. As inúmeras xicaras de café sujas na pia. No chão, os vinis, as roupas e os livros formavam um tapete. A geladeira estava tão vazia quanto a cama. Várias carteiras de Marlboro e uma garrafa de vodca pela metade. TUDO. NADA. Ela havia ultrapassado o limite para um caminho sem volta. Ainda conseguia olhar as luzes de uma vida morna e comum que levara antes. Ainda ouviu passos familiares na escada.

Ele entrou na casa escura trazendo nas mãos o amor morto. Ele percebeu em sua direção aquele olhar que sempre lhe desnudava a alma. Ele a olhou pela última vez da mesma forma que enxergou a vida inteira: desnuda, carnal e inalcançável.  Aqueles lábios cerrados não lhe diziam mais nada. Ao lado dela pôs o amor morto. Repousou as mãos naqueles seios ensanguentados. Não chorou. Sabia que ela nunca seria realmente dele, nem de outro. Ninguém jamais entraria em seu abismo.

Um comentário:

...Elis... disse...

tava com saudade de te ler