Um corpo sem memória



A noite estava quente. Não pelo clima, um tanto frio naquela festa escura. Mas cada centímetro da pele dela parecia corar. Vermelhos se espalhavam deixando vestígios, em meio a música alta e todos aqueles olhares curiosos.  Ela pensava em fugir, em fingir, em mentir que não queria nada daquilo. Sentia como uma corrente elétrica os arrepios que bailavam pelo corpo todo, dificultando a respiração e aumentando o calor. Quem poderia esperar? Depois de tanto tempo, desencontros, traições, mentiras, verdades e dores ele estava ali. Confissões, arrepios, silêncio... Quanto mais falava mais queria calar. Não conseguia. As palavras - essas que nunca tiveram espaço entre eles - estavam com força total, sendo expurgadas em meio a uma multidão de desconhecidos. Não parecia ser certo, não pra ela. Ela poderia esconder toda a fragilidade numa postura teatral que lhe daria segurança para mentir descaradamente. Poderia como um mantra, repetir que dada às circunstâncias era melhor que isso não acontecesse. Mas estava ali, desarmada, lisérgica e totalmente entregue aquelas sensações.  

Depois de mais danças e menos palavras saíram dali. Ela deitou na grama com o ópio na mão, todas as vontades no corpo inteiro e se deu total liberdade para ser o que era. Em meio aos passantes muito próximos, ele a beijava e a fazia rir de susto, de prazer e de medo. Só havia as luzes das estrelas ali e eles não conseguiam mais ficar parados por um segundo. Ele a tocava sensualmente por debaixo de sua saia, tocando suas coxas com força. Com as mãos famintas agarrava seu cabelo e percorria com a língua sua nuca, seus seios, seu ventre. Rapidamente tirou cada peça da roupa dela, deixando-lhe apenas as botas. Não havia tempo para pormenores. Lambeu seu sexo avidamente. Segurando firmemente sua cintura, falava obscenidades no seu ouvido e a penetrou. Ela gemia alucinada a cada estocada quente que lhe dava. Gritava seu nome. Ele a encarava feroz, não a deixava desviar, beijava-lhe a boca, mordia, lambia. Ela gozava e gemia infringido suas próprias decisões, se entregando fatalmente ao seu desejo. Assim a noite quase virou dia. Dormiram abraçados. Ela nunca conseguia se acostumar com o sono do outro, a posição do corpo, o ritmo, a respiração. Mas eles tinham essa química, como o resto de tudo também. 

Quando acordou percebera que ele havia partido. Lavou o rosto e descabelada sentia o cheiro do sexo em cada parte do seu corpo, nos seus pelos e do pelo de todo pelo e da pele poro epiderme. Tentou capturar cada segundo, cada movimento, o beijo, o gosto, o toque, o sexo. Todos os fragmentos da noite passada. Ela se olhava no espelho. Um gole de vinho, um cigarro. Depois de uma sequência de cigarros, percebeu distante que ele sabia e ela também. Por algumas horas, quase irreais, eles esqueceram todas as dores que ela havia causado. Esqueceram que nada havia para eles além dessa coisa ordinária de febre e urgência. E olhando no espelho entendeu as palavras gastas, em detrimento de toda sedução física. Mudava tão rápido de opinião. Tão escorregadia. Tomou banho, colocou um batom vermelho e com um sorrisinho no canto da boca saiu. Pelas ruas seus olhos se debruçavam avidamente pelo desconhecido. Sentia o calor do sol. É que o desejo anda com suas próprias pernas e não controla sua boca nem estômago. Corpo desmemoriado. Um corpo sem memória.


Um comentário:

Julieta Menezes disse...

Putz, em olhos fechados me vi e sentir o outro, este que muitas vezes no invisível eu guardo, mas que sempre estar ali, a bulinar... provocar... dançar... e partir. Forte e intenso, assim como deve ser a palavra escrita quando se perpetua tatuada no peito!!LInda ANA!