Carta para ela.


Aqui nesse exato momento, olho pela janela e tem algumas nuvens cinza. Mas em alguns cantinhos o azul toma conta e preenche. Venta bastante. Escuto música e vezenquando chacoalho o snow globe com um cristo redentor dentro e a inscrição I ♥ Rio. Quando chacoalho em vez de neve são pequeniníssimos papeis coloridos que brilha dentro. Como poderia mesmo que em uma bola de vidro ter neve no Rio? Imagino que o Cristo deve se sentir preso lá dentro mesmo com tantas cores. Mas aí lembro que cristos de gesso não se importam em ficar estáticos. Isso me lembra a escadaria Selarón e todos aqueles azulejos coloridos. E tinha um abraço que ficou lá perto no dia em que vim embora, era uma menina que me mostrou Clarice Lispector e as ruínas (as do parque e as minhas). Eu aí lembro que nessa época eu aprendi que arte é quando você vive o que ama.
- (pausa) -
Volto pros trabalhos (sim, trabalho escutando música). Sempre quando fica pesado demais, cansativo demais eu paro e pego papéis. Faço caixinhas. Acendo incenso. Acendo um de flor de laranja que é pra lembrar de quando eu sempre queria comer o bolo quente assim que minha mãe tirava do forno.
“–Menina, quente faz mal!”.
Mas eu saia fugida com um pedaço de uma mão para outra mesmo assim. Assoprava na boca o bolo quente e ficava sentindo cheiro de laranja. Mas o que é que eu vim falar aqui mesmo? Ah, eu vim falar de saudade. É que essa coisa toda de lembrar de tanta coisa e de tanta saudade tanta, me lembrou das lembranças tantas e da saudade que sinto de você.

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