O livro vermelho


Desde pequena ela sequer havia saído dos arredores da casa dos pais. A costureira, essa sim a sua mais longa viagem, ficava a dois quarteirões dali. Desconfiada e discreta. Aconchegara as costas naquele sofá miúdo e de poucas cores.  – Sinta-se em casa, advertiu ele. Ela estremeceu. 

De todas as descobertas daquele novo mundo fixava-se na estante de livros. Inicialmente tinha medo de tocá-la. Parecia um grande lembrete que ali não era seu lar. De todas as ressignificações diárias do seu novo espaço aquela estante lhe repelia a uma desnaturalização. Será que ele lera todos aqueles livros? Cada título em capas distintas lhe inferia o abismo existente. Afinal, não era o seu lar. Quantas vezes voltando da floricultura se perdera tentando achar o caminho da antiga casa?

Passou a observar as capas. Com a desculpa de tirar-lhes o pó, é claro. Até que começou a lê-los de forma insaciável. Escondido, é claro. Era um crime. Ela era uma criminosa absorta naquelas tardes em que sentava a janela e ia devorando um a um, o máximo que conseguia. Nos finais de semana quando ele recebia visitas, ela sorria deliciosamente por dentro e calada observava os senhores discursarem longamente enquanto lhes servia café. Astronomia, história, psicologia, literatura e até filosofia. Ela gostava de ouvir e ficava imaginando seus próprios longos discursos.

Em pouco tempo da sua chegada leu até a última prateleira. Havia sobrado apenas um livro pequeno de capa vermelha, quase esquecido no meio de tantos livros maiores. Agarrou-lhe ao peito em prantos. Não poderia ler este. 

Depois daquela tarde, toda a casa tornou-se claustrofóbica. Angustiada, enterrou o pequeno livro vermelho no meio do jardim entre as tulipas. Todos aqueles mundos que conhecera tão distintos do seu, tão distantes do seu... Aquele pequeno livro representava a última chave, o seu último bilhete de passagem. Jamais dissera a ele a razão de tanta dedicação as tulipas. E mesmo que ele insistisse que deixasse o jardineiro fazer o trabalho dele, ela quase suplicava que lhe deixasse fazer isso, ao menos isso.

Anos se passaram e ela foi mãe, avó. Recebera as visitas do marido inúmeros finais de semana até arriscando algumas vezes tocar poucas melodias no piano. Mesmo quando ele se foi, jamais voltaria a ver seu tesouro escondido no jardim. Enterrou com o pequeno livro vermelho todos os mundos que sonhara em viver e que só realizava na imaginação da sua memória.

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